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Projeto Iluminismo · Prólogo

Um resumo da história universal

Como, a partir da linguagem, do grão de semente e do acaso, surgiu o sistema em que vivemos hoje.

«Sistema atual» designa aqui a teia em que vivemos: Estados-nação + capitalismo global + civilização científico-técnica + instituições internacionais.

I

Os grandes limiares

O que é fiável não começa com a escrita, mas antes: ali onde a evidência se torna sólida o bastante para se sustentar.

  1. Limiar cognitivo · ~70.000 a.C.

    A linguagem que inventa realidades

    O Homo sapiens desenvolve uma linguagem para além do concreto: mitos, regras, ficções partilhadas. Isso permite a cooperação entre estranhos em grande número: o verdadeiro superpoder da espécie.

  2. Revolução neolítica · ~10.000 a.C.

    Sedentarização e excedente

    Agricultura e domesticação. Excedente → reserva → propriedade, hierarquia, especialização. Aqui nasce a equação fundamental de todo poder: quem controla o excedente controla as pessoas.

  3. Primeiras civilizações · ~3500 a.C.

    Cidade, Estado, imposto, escrita

    Mesopotâmia, Egipto, o Indo, o rio Amarelo. A escrita nasce primeiro para a contabilidade, não para a poesia. Começa a «história» em sentido estrito.

  4. Era Axial · ~800–200 a.C.

    Ideias universais de ordem

    Quase ao mesmo tempo na Grécia, Israel, Pérsia, Índia, China: a filosofia e as religiões universais colocam o indivíduo diante de um universal, em vez de apenas diante de deuses locais.

  5. Impérios antigos · ~500 a.C.–500 d.C.

    Administração em larga escala

    Pérsia, Roma, a China dos Han, os Maurya. Invenção do direito, da infraestrutura, do dinheiro e da burocracia em grande escala.

  6. Interligação pós-clássica · 600–1400

    Rota da seda e oceano Índico

    O islão como ponte; saberes, mercadorias e doenças circulam. O Império mongol (séc. XIII) liga a Eurásia de ponta a ponta pela primeira vez.

  7. Globalização 1.0 · ~1500

    O intercâmbio colombiano

    «Descobrimentos», intercâmbio de plantas, animais, epidemias, pessoas, prata. Pela primeira vez um verdadeiro sistema planetário, sustentado pela violência, a escravatura, o colonialismo.

  8. Revolução científica · séc. XVI–XVII

    O método em vez da autoridade

    Experimentação e matematização. O saber torna-se cumulativo e verificável, já não se deduz da autoridade.

  9. O Iluminismo e revoluções · 1776 / 1789

    A soberania migra para o «povo»

    Em teoria: o poder passa do soberano ao povo. Direitos, constituição, nação.

  10. Revolução industrial · ~1760–1900

    A verdadeira ruptura

    A energia fóssil substitui a força dos músculos e da madeira. Pela primeira vez o crescimento desacopla-se de forma duradoura da população. A riqueza por habitante dispara.

  11. Século XX · 1914–1991

    Colapso e reorganização

    Duas guerras mundiais, ideologias de massas, depois Bretton Woods, a ONU, a descolonização, a Guerra Fria. Daí cristaliza o arcabouço atual.

  12. Globalização digital · desde ~1990

    A informação torna-se (quase) gratuita

    O saber torna-se quase grátis de copiar e transmitir. É o limiar em que nos encontramos neste momento.

Um longo friso em fita tecida de nove cenas em miniatura da esquerda para a direita: uma boca que fala, um grão de semente que germina, uma cidade amuralhada, três sábios sentados, um estandarte com águia, um veleiro, uma prensa de impressão, uma fábrica e uma placa de circuito luminosa.
Lâmina · Os grandes limiares Nove limiares, um só fio, da linguagem à placa de circuito.

II

As teorias: o que impulsiona a história?

As grandes escolas contradizem-se entre si. Cada uma explica algo, nenhuma explica tudo.

Marx

Materialismo

O modo de produção e a luta de classes impulsionam tudo; as ideias são «superestrutura».

Forte:industrialização, capitalismo

Fraco:por que a mesma matéria toma caminhos totalmente diferentes

Hegel, Weber

Idealismo

As ideias, a religião, a cultura são o motor: a «ética protestante» de Weber como faísca do capitalismo, por exemplo.

Forte:a explicação da motivação

Fraco:sobrestima certas cadeias causais

Jared Diamond

Determinismo geográfico

O clima, as espécies e os eixos continentais decidem quem obtém cedo excedente e imunidade.

Forte:o prazo muito longo

Fraco:os últimos 500 anos (demasiado determinista)

Acemoglu & Robinson

Institucionalismo

Instituições «inclusivas» vs «extrativas» decidem a prosperidade.

Forte:a época moderna

Fraco:de onde vêm as instituições

Wallerstein

Teoria do sistema-mundo

Um sistema capitalista de centro-periferia, vigente desde ~1500, explica a desigualdade global.

Forte:o colonialismo

Fraco:subestima a dinâmica própria da periferia

Ibn Khaldun, Spengler, Toynbee

Modelos cíclicos

Culturas e impérios atravessam nascimento, apogeu, declínio.

Forte:a ascensão e a queda dos impérios

Fraco:não explica o crescimento orientado da modernidade

Carlyle e outros

Contingência / «Grande homem»

O acaso e certas pessoas fazem a história bascular nos seus pontos de inflexão.

Forte:certos pontos de inflexão

Fraco:como explicação global

III

Cristalizada: a linha mais provável

Nenhuma escola acerta sozinha. Juntas formam um modelo de retroalimentação de vários níveis.

A geografia fixa as condições de partida → o excedente gera complexidade (Estado, escrita, hierarquia) → as instituições e as ideias canalizam esse excedente → energia + saber retroalimentam e aceleram → o acaso decide quem atravessa primeiro a porta seguinte.

A natureza repartiu de forma desigual as espécies domesticáveis e o clima (Diamond). Isso deu à Eurásia uma vantagem, não uma superioridade moral ou biológica. Onde surgia o excedente surgiam por força o Estado, a escrita e as classes; aqui o materialismo tem razão.

O primeiro celeiro redondo junto a um campo de trigo dourado; um sacerdote-contabilista conta sacos enquanto camponeses levam feixes para o celeiro.
Lâmina · Sedentarização Onde o excedente se armazena surgem o Estado, a escrita e as classes.

Mas que forma isso assumiu decidiram-no as ideias e as instituições (Weber, Acemoglu), e por isso as mesmas condições materiais conduziram ao faraó, à pólis ou ao mandarinato.

Durante milénios tudo permaneceu na armadilha malthusiana: mais produtividade → mais gente → de novo a pobreza. A ruptura decisiva não foi uma ideia isolada, mas a energia fóssil + a ciência cumulativa + os Estados rivais + o capital do comércio mundial e do colonialismo, que coincidiram ao mesmo tempo na Europa. Isso rompeu a armadilha para sempre. Desde então a riqueza cresce mais depressa que a população.

O sistema atual é a consequência: a ruptura industrial produziu tais diferenças de poder e de riqueza que as principais nações industriais dominaram o resto do mundo durante cerca de século e meio. No século XX essa ordem colapsou em duas guerras mundiais, e dos escombros construiu-se deliberadamente um novo arcabouço: os Estados-nação como forma normal, engastados em instituições internacionais (a ONU, Bretton Woods, o regime do comércio mundial), sustentados por um capitalismo global e por uma ciência cumulativa que se acelera a si mesma.

Desde ~1990 corre por cima a camada digital: a informação torna-se quase gratuita, o que volta a reconstruir os mercados, o poder e a esfera pública. O próximo momento-limiar, cujo desfecho continua em aberto. A lição da linha longa: a história não é nem puro acaso nem puro destino, mas uma cadeia de limiares em que as condições materiais delimitam o possível, as ideias dão forma ao concreto, e o acaso fixa a ordem.

Muitas correntes finas e entrançadas, em antracite, turquesa e violeta, confluem de cima e tornam-se um largo e tranquilo rio dourado que flui em direção a quem o contempla.
Lâmina · A linha mais provável Nenhuma escola sozinha. Juntas formam uma só corrente.

Fontes complementares

Um ponto de entrada por posição: os livros que tornaram grande cada tese, mais dados e palavras-chave para consultar.

Os grandes livros de explicação

  • Yuval N. Harari: Sapiens.: O limiar cognitivo e as ficções partilhadas.
  • Jared Diamond: Guns, Germs & Steel.: Determinismo geográfico.
  • Acemoglu & Robinson: Why Nations Fail.: Institucionalismo.
  • Max Weber: A ética protestante.: As ideias como motor.
  • Immanuel Wallerstein: Teoria do sistema-mundo.: Centro e periferia.
  • Ibn Khaldun: Muqaddimah.: O mais antigo modelo cíclico da história.
  • Kenneth Pomeranz: The Great Divergence.: Por que a Europa se adiantou a partir de 1800.

Termos-chave para consultar

  • Revolução neolítica: Agricultura, sedentarização, excedente.
  • Era Axial: A tese de Karl Jaspers sobre uma revolução simultânea do espírito.
  • Intercâmbio colombiano: o começo do sistema planetário.
  • Revolução científica: o método em vez da autoridade.
  • Revolução industrial: a verdadeira ruptura.
  • O sistema de Bretton Woods: o arcabouço económico da ordem do pós-guerra.
  • A armadilha malthusiana: por que a riqueza nunca subiu de forma sustentada antes de 1800.

Dados e linhas longas

  • Our World in Data: Riqueza, população, energia ao longo de milénios, com fontes.
  • Big History: a tentativa de abarcar num só relato desde o Big Bang até ao presente.